sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Joseph Glanvill

Ocorrências anteriores à Hydesville

    A vila de Hydesville constitui-se no local das manifestações coletivas significadoras de um novo modo de ver a vida. Espíritos existem, e podem se comunicar com qualquer um – esta descoberta movimentou os Estados Unidos e o mundo, em torno de métodos, fenômenos, médiuns e sessões públicas, conversação com entes queridos desencarnados, estudos, livros, palestras e discussões acaloradas.
    Dois séculos  antes da Família Fox ser perturbada por dias seguidos na intimidade do próprio lar, Joseph Glanvill descrevera fenômenos semelhantes, em seu livro Saducismus Triumphatus (1666).
    Joseph Glanvil (1636-1680), filósofo inglês, relata os distúrbios do Batedor de Tedworth1 ocorridos durante um ano inteiro, na casa do magistrado John Mompesson, de Tedworth, condado de Wilts, muitos dos quais testemunhados pelo próprio Glanvil.
    Estranhas batidas exprimiam respostas a perguntas precisas dirigidas a presenças desconhecidas. Joseph Glanvil, ao afirmar crer em Deus e também acreditar na comunicação com os mortos, teve sua reputação abalada após sua morte. Cento e oitenta anos depois, a sra. Margaret Fox redescobrirá o método de obter respostas de espíritos, e o espírito batedor de Hydesville fará um ruído para dizer 'sim', e manterá silêncio para responder 'não'.

     O espírito Baterista de Tedworth manifestou-se tocando tambor durante um ano, a partir de abril de 1661, na casa do magistrado John Mompesson.  William Drury – descrito como um mágico itinerante e baterista– foi preso por gerar distúrbios ao bater seu tambor e pedir esmolas. Foi julgado culpado, teve seu tambor confiscado e foi obrigado a deixar a cidade. O magistrado John Mompesson planejava ir a Londres por uns dias a serviço, quando o oficial de justiça chegou trazendo o tambor para ser recolhido na casa do magistrado. Alguns dias depois, ao retornar de seus compromissos, o magistrado foi recebido pela esposa que lhe contou sobre os aborrecimentos causados por distúrbios estranhos que pareciam tentativa de assalto à casa, e por barulhos que se assemelhavam à demolição da casa, especialmente à noite. Havia sons de bateria do tambor, ruídos no telhado e batidas nos móveis e nas paredes. O magistrado somente fará contato pessoal com essas ocorrências na terceira noite após ter voltado para casa. Mompesson acordou ouvindo ruídos tremendos nas paredes e na porta da frente da casa. O magistrado tomou duas pistolas e abriu a porta onde estava ocorrendo um ruído forte, mas imediatamente o ruído surgiu em outra porta. O ruído passou a pervagar a residência, fazendo o magistrado dar um giro completo pela casa sem ter encontrado nada. Tendo voltado para a cama, os ruídos reiniciaram na parte mais alta da casa, semelhando-se ao bater de um tambor, que aos poucos elevou-se no ar.2    
   O magistrado agiu imediatamente, destruindo o tambor de William Drury e quebrando-o em pedaços. Mas os barulhos continuaram.
    O reverendo Joseph Glanvil, capelão do rei Carlos II, foi chamado para investigar. Ele afirmou que subiu as escadas na casa de Mompesson e encontrou, no andar superior, duas meninas com idades entre sete e onze, sentadas na cama e muito assustadas. Os ruídos provinham do espaldar da cama e das paredes. Observou que as mãos das meninas estavam à plena vista sobre as colchas da cama, de modo que Glanvil retirou sua suspeita de que os sons estariam sendo produzidos por elas. Glanvill percebeu que havia um saco de linho, semelhante a um saco de roupa, pendurado na cabeceira de outra cama no mesmo quarto, e balançava para frente e para trás, e não havia ninguém ali. Glanvill agarrou-o e o esvaziou, não encontrando nada de incomum. Uma busca minuciosa pelo quarto não lhe permitiu encontrar uma explicação satisfatória. Os ruídos cessaram. Nos dias seguintes, o magistrado Mompesson foi informado de que William Drury, o baterista, havia sido preso por roubo na cidade de Gloucester, e tinha sido exilado para as colônias.
   No entanto, os ruídos recomeçaram. Soube-se que William Drury tinha conseguido retornar à Inglaterra, e parecia haver uma conexão entre seu retorno e as ocorrências de distúrbios, que agora tornaram-se insuportáveis.  Na casa do magistrado, além da bateção semelhante a sons de tambor, sapatos levitavam voando pelos ares, penicos eram esvaziados sobre as camas, as janelas tremiam e a casa passou a exalar terríveis odores sulfurosos. Os ruídos eram tão altos que toda a aldeia podia ouvi-los. Durante um ano inteiro sucederam-se os distúrbios, até que, sem qualquer explicação, cessaram para sempre.3
(1) Dicionário de Filosofia coordenado por Thomas Mautner. Edições 70, 2010
(2) Footfalls of the Boundary of Another World, Robert Dale Owen, Trübner &CO., 1860, capítulo 2º, p. 215-216.
(3) The Spirit Book: The Encyclopedia of Clairvoyance, Channelling, and Spirit Communication, Raymond Buckland, Visible Ink Press, 2006, p. 116-117


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Montalembert

   Paris assistiu, em 1528, ao lançamento do curioso livro "A maravilhosa história de um espírito que
ultimamente tem aparecido no mosteiro das freiras de São Pedro, em Lyon", escrito pelo capelão do rei Francisco I, Adrien de Montalembert.
   Tratava da aparição e comunicações mantidas com o espírito de uma freira de nome Alis de Tesieux, a qual tivera comportamento passível de graves reprimendas durante a vida clerical e também depois de a ter abandonado, mas que antes de morrer arrependeu-se de seus pecados. Tendo uma jovem freira Anthoinette de Grollée de 18 anos de idade começado a ter visões da falecida irmã Alis, ruídos de pancadas no chão a acompanhavam onde quer que estivesse (1) . O capelão do rei Francisco I foi chamado para, acompanhado do bispo de Lyon, deter e expulsar o espírito da freira.  


(1) d'Artigny, Antoine Gachet. Nouveaux mémoires d'histoire, de critique et de littérature, Académie des siences, belles-lettres et arts, 1756, p. 195

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Philipp Melanchthon

   Na Alemanha de 1520, o reformador religioso e teólogo Philipp Melanchthon (1497-1560) descreveu a ocorrência de ruídos misteriosos em Oppenheim. Seu nome de família era Schwarzerdt, mas seu tio-avô, o humanista Johannes Reuchlin o chamava Melanchthon, que é a tradução de Schwarzerdt para o idioma grego. Um dos principais colaboradores de Lutero na Reforma Protestante, tornou-se o principal líder do protestantismo após a morte de Lutero.
   "Posso afiançar que vi espíritos e conheço muitas pessoas confiáveis que afirmam que não apenas os viram, mas mantiveram conversações com eles." (1)
   Melanchthon também afirmou que Lutero, o líder da Reforma Protestante, foi visitado por um espírito que se anunciou batendo na porta dele. (2)

(1) De Anima Recogn, Wittemberg, 1595, p. 317
(2) Howitt, William. The History of the Supernatural in All Ages and Nations, Cambridge University Press, 1863, p. 435

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Rodolfo de Fulda

   Dentre as mais antigas descrições de manifestações de espíritos provocadores de ruídos, encontram-se os escritos de Rudolf von Fulda (?-868), monge da ordem beneditina no século XIX. Rodolfo foi um devotado teólogo, historiador e poeta, notável praticante de todas as artes. (1).
Monastério de Fulda
  Suas descrições sobre comunicações obtidas com uma inteligência batedora aparecem na crônica Anais de Fulda, no ano de 858. Podemos, desta forma, relacioná-lo entre os antecedentes das ocorrências de Hydesville, inauguradoras do movimento do novo Espiritualismo e da esteira de ações geradoras do Espiritismo (2). 
   O monastério de Fulda está localizado no que atualmente é o estado alemão de Hesse. As crônicas dos Anais de Fulda foram iniciadas pelo monge Einhard e constituíram-se, principalmente, em fonte histórica sobre guerras do período carolíngio. Rodolfo assumiu a feitura das crônicas anuais no ano 858, justamente quando faz aparecer o relato de comunicações com ruídos inteligentes atribuídos a causas invisíveis. As ocorrências se deram em uma casa de fazenda perto de Bingen, na região do Reno, onde o fazendeiro vivia com sua esposa e filhos. A crônica diz que o espírito evidenciou sua presença inicialmente fazendo pedras serem lançadas contra a casa; depois, fez sacudir as paredes que tremiam ao som semelhado a golpes de martelo. Nitidamente o espírito estava focado em perturbar o dono da fazenda, a quem perseguia com frequência.  O espírito causou incêndios queimando as colheitas logo depois de terem sido colhidas e armazenadas. Ocorreram, então, fenômenos de voz direta e o espírito denunciou o homem por vários pecados, incluindo dormir com a filha do capataz da sua própria fazenda. O Bispo de Mainz enviou sacerdotes portando relíquias sagradas até a fazenda e estes também ouviram a voz do espírito denunciando o fazendeiro por adultério. (3)


(1) Reuter, Timothy. The Annals of Fulda: Ninth-Century histories. Volume II. New York: Manchester University Press, 2012
(2) Righi, Brain. Ghosts, Apparitions and Poltergeists: An Exploration of the Supernatural through HIstory. LLewellyn Worldwide, chap. 4, 2011
(3) Wilson. Collin. Poltergeist: A Classic Study in Destructive Hauntings. 2012. p.83

domingo, 22 de julho de 2018

Paracelso



  

   Philippus Aureolus Theophrastus Bombast Von Hohenheim (1493-1541) foi médico, antropólogo, teólogo, sendo considerado em sua época como um grande mago.
   Para ele tudo é vivente; a vida, que existe nos metais como nas plantas, pode ser transmitida destes ao homem.
   Paracelso afirmou que o homem possui em si mesmo um fluido magnético e que sem essa energia ele não poderia existir. Tratava-se de uma espécie de fluido universal que produz todos os fenômenos que observamos. Os magnetizadores que viriam 300 anos mais tarde afirmariam a existência do fluido vital, com as mesmas funções do fluído magnético de Paracelso.
  Com base nestes conceitos afirmava que, como o homem emite e recebe vibrações, pode também emitir ou receber boas ou más vibrações. Acreditando ter descoberto outra função para os imãs, além da função de atrair metais, aplicou os magnetos e produziu curas de epiléticos e de pessoas sob efeito de outras doenças nervosas.
  Paracelso foi um dos principais precursores do estudo do magnetismo animal, ainda que se considere Mesmer, dois séculos depois, como o pai da teoria do magnetismo.
  Paracelso aplicou suas ideias à medicina afirmando que "o primeiro médico do homem é Deus", autor da saúde, já que "o corpo não é mais que a casa da alma".
   A palavra Magnetismo provém dele, que comparou a força emitida pelo homem à atração que o imã (magneto), exerce sobre o ferro. Depois de Paracelso, seus discípulos continuaram o trabalho do mestre, porém praticamente às escondidas, devido às perseguições dos religiosos e dos médicos.
  Contribuição de Paracelso: o reconhecimento da existência de um poder que flui e pode ser utilizado pelos homens: criou a palavra magnetismo e a conceituou, comparando a forma emitida pelo homem à atração que o imã exerce sobre o ferro.
 Podemos ainda relacioná-lo entre os antecedentes dos estudos sobre tiptologia ao denominar os ruídos pela expressão latina pulsatio mortuorum, - presságios de morte -, nos seus escritos "Almas dos Mortos". (1)

(1) The Selected Works of Andrew Lang, Library of Alexandria, p.l 808)

sábado, 21 de julho de 2018

Culto do Evangelho no Lar

   Um centro ou qualquer outra agremiação espírita não é casa de oração. A casa espírita é um local de trabalho espiritual, realizado sempre à luz da oração, mas o Espiritismo não tem santuários, templos, casas de oração.
   Um espírita consciente, quando sente necessidade de orar, não tem a necessidade absoluta de se dirigir a uma casa espírita. Pode orar em qualquer lugar, mas deve preferencialmente fazê-lo no seu lar, que deve ser considerado o seu santuário maior.
   Jesus jamais recomendou o comparecimento a um templo, para a oração. Em diálogo com a Samaritana, à beira do Poço de Jacó, respondendo à sua pergunta se deveria orar no templo de Jerusalém, deu-lhe a seguinte resposta: "Mulher, crê-me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai." (Jo, 4:21). "Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade." (Jo, 4:24).
   No Sermão da Montanha, há uma única recomendação de Jesus quanto a local de oração: "Mas tu, quando orares, entra no teu aposento, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em oculto; e teu Pai, que vê secretamente, te recompensará." (Mat, 6:6).
   Analisando-se a recomendação acima, conclui-se que o lar é o templo religioso para a família espírita, é o lugar sagrado onde se devem processar as orações em família, bem como as meditações individuais.
   Essa recomendação de Jesus quanto á oração no lar é perfeitamente coerente com a milenar prática judaica realizada em todos os lares, depois do pôr do sol da sexta-feira, que consiste na leitura de um texto escolhido da Torá, que é comentado pelo chefe da família ou quem ele designar.
   Em Israel, como convidado para um jantar, tive oportunidade de participar desse momento sagrado, num lar judeu. Nessa oportunidade, perguntei ao guia que orientava o grupo de convidados, de que eu fazia parte, como ele agiria relativamente à sua religião se morasse numa cidade onde não houvesse uma sinagoga. Ele respondeu-me que não dependia de um templo para continuar sendo fiel praticante da sua crença. Disse-me ele enfaticamente: "Para ser fiel à minha religião, devo realizar em meu lar esse momento religioso que vivenciamos aqui. Todo lar verdadeiramente judaico, em todo o mundo, na noite de sexta-feira, antes da refeição habitual, faz o que fizemos aqui, ou seja a leitura de um trecho da Torá e um comentário."
   Assim também deve agir o espírita que resida em local onde não exista centro espírita ou, caso exista, não tenha a possibilidade de frequentá-lo. Poderá vivenciar plenamente sua convicção espírita promovendo o culto espírita em seu lar, através de leitura de páginas edificantes e de conversação sadia sobre elas. Mesmo no caso de estar só, poderá fazer uma leitura, uma meditação e finalizar seu momento religioso com uma prece.
   Na obra "Jesus no Lar", o Espírito Neio Lúcio transcreve importante recomendação de Jesus a Simão Pedro, no final de uma conversa em que o Mestre discorria sobre o papel do lar na vida humana. Finalizando a conversa, Jesus, referindo-se à mesa do lar, disse: "Por que não instalar, ao redor dela, a sementeira da felicidade e da paz na conversação e no pensamento?"
   Como espíritas, temos inúmeras páginas conclamando-nos à realização desse momento de espiritualidade em nossos lares, como essa do primeiro capítulo do livro "Jesus no Lar", que Neio Lúcio finaliza, mostrando, depois de edificante diálogo, que pela atitude de Jesus, o Culto no Lar não é uma reunião de reza, mas de leitura, reflexão e conversação nobre: "Então Jesus, convidando os familiares do apóstolo à palestra edificante e à meditação elevada, desenrolou os escritos da sabedoria e abriu, na Terra, o primeiro culto cristão do lar. 
     

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Receptadores

   Receptadores  -   José Passini
   O receptador é mais criminoso do que aquele que assalta, que rouba, que desvia bens. O receptador incentiva o crime, pois ao assaltar, o criminoso sabe que tem um comparsa: aquele que lhe comprará o fruto do roubo.
   Há muitos tipos de receptadores: aqueles que compram o produto do roubo por ter um valor muito baixo, para revendê-lo com grande lucro, por não incidirem sobre ele os respectivos impostos. Outros, embora sabendo de sua origem ilícita o adquirem para uso próprio.
   É de se perguntar quais os meios de que se valem os assaltantes para colocar no comércio o produto de grandes roubos, às vezes cargas inteiras de caminhões de transporte que conduzem mercadorias de variada espécie. Seria de se perguntar, também, como podem as peças roubadas ser colocadas no mercado sem a conivência de comerciantes inescrupulosos, receptadores que são tão criminosos quanto os assaltantes. Talvez mais, até.
   Será que não está faltando uma fiscalização severa no sentido de verificar a origem de produtos que estão sendo comercializados?
   Diante do volume crescente de roubos de cargas, a fiscalização sobre a origem de produtos comercializados pelos estabelecimentos de existência legal deveria ser mais rígida. A facilidade na colocação do produto do assalto é forte incentivo ao roubo.
   Outro tipo de receptador é aquele consumidor que, embora sabendo da procedência duvidosa de um produto, é tentado pelo seu preço muito abaixo do normal. Deixando de lado o escrúpulo, adquire-o, incentivando assim o roubo, o tráfico, a contravenção enfim.
   Nesse contexto, onde entram os ensinamentos espíritas? Se temos dúvidas quanto à licitude da origem do produto, devemos aplicar o ensinamento do Apóstolo Paulo: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam." (I Co, 10:23).
   A sociedade deve ter consciência de que o comprador de droga, ainda que para seu uso pessoal, é também um contraventor, um receptador de produto que circula através do crie, gerando o maior desequilíbrio social dos últimos tempos.
   Diante do fato de não ser possível ao usuário de droga a sua aquisição por meios legais, todo aquele que fosse apanhado com tais produtos, ainda que para uso pessoal, deveria ser responsabilizado, pois estaria, no mínimo, na condição de receptador de produto de circulação ilegal. Se a droga não pode ser comercializada legalmente, o seu usuário deveria ser criminalizado também, diante do fato de estar comprando produto de tráfico. O usuário de droga deve ser conscientizado de que também ele é agente promotor de grave desequilíbrio social, pois contribui diretamente para a manutenção dessas lutas armadas entre quadrilhas que vivem do narcotráfico, em tiroteios que levam muitos inocentes à morte.
 
 
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