segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Comunicação de encarnados na reunião mediúnica


       O Espiritismo é uma ciência. Quem está fazendo ciência espírita?

    Allan Kardec definiu: "Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma maneira que as ciências positivas, isto é, aplica o método experimental." (A Gênese, cap 1, item 14, Allan Kardec)

     Resta-nos agora, começarmos a fazer ciência espírita. Alguns espíritas já estão fazendo isso, como é o caso do Diretor das Casas André Luiz e o grupo mediúnico do qual ele participa (www.casasandreluiz.org.br). Graças a pesquisa efetuada por experimentadores como Frederico Camelo Leão, o tema da ciência espírita encontra-se em fase de novas abordagens. Em sua Dissertação “Uso de práticas espirituais em instituição para portadores de deficiência mental” apresentada ao Departamento de Psiquiatria da  Faculdade de Medicina da USP - Universidade de São Paulo, obteve o título de Mestre em Ciências, pesquisando de que modo é possível auxiliar na terapia de deficientes mentais, conversando com o deficiente mental quando este se expressa através de um médium na reunião mediúnica. 


   Apresentamos aqui, excertos da monografia de Frederico Camelo Leão, que relata a ação de grupos mediúnicos no atendimento a portadores de deficiência mental, sob a denominação de terapêutica mediúnica para portadores de deficiência mental.

     O trabalho de Frederico teve por objetivo  “avaliar o impacto de práticas espirituais na evolução clínica e comportamental de pacientes portadores de deficiência mental internados em instituição de saúde”, através do método: “Ensaio controlado comparando grupo experimental submetido à prática espiritual com grupo controle. O instrumento utilizado para obtenção dos dados foi a Escala de Observação Interativa de Pacientes Psiquiátricos Internados.”
     “Esta pesquisa foi pioneira ao investigar os possíveis efeitos clínicos e comportamentais oriundos de práticas religiosas espíritas em portadores de deficiência mental.”

     O interesse da ciência pelo estudo da interrelação possível entre espiritualidade e saúde é mencionado:
  “No Brasil, o Espiritismo aceita, estimula e valoriza experiências dissociativas, tais como: incorporação espiritual e experiências fora do corpo. Existem várias instituições filantrópicas para o tratamento de transtornos mentais que visam a associar práticas médicas a religiosas.     Os procedimentos utilizados são preces, energização e uso de mediunidade, segundo os princípios da doutrina espírita.
  As comunicações recebidas pelos médiuns podem ter duas origens: um espírito desencarnado (de pessoa que já faleceu) ou um espírito encarnado (pessoa viva).”

     É o que assevera Kardec em: Os fenômenos espíritas consistem nos diferentes modos de manifestação da alma ou Espírito, quer durante a encarnação, quer no estado de erraticidade. (Allan Kardec, em A Gênese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo, cap. XIII, item 9)

  A instituição estudada, o Centro Espírita Nosso Lar Casas André Luiz (Cencal), oferece atendimento técnico multidisciplinar a 650 pacientes portadores de deficiências mental e múltiplas (atualmente são mais de 1.000 pacientes), que passam sua vida inteira no hospital.
Nessa instituição, os pacientes recebem, em paralelo, atendimento espiritual, uma vez que o Cencal segue a filosofia espírita. As práticas espirituais não entram em conflito com os procedimentos da medicina convencional e envolvem aplicação de preces e realização de reuniões mediúnicas.
     Esta pesquisa focou-se nas atividades de assistência espiritual realizadas nas reuniões mediúnicas.

Do total de 650 pacientes portadores de deficiência mental (atualmente são mais de 1.000), segundo a CID-10, internados na Unidade Hospitalar de Longa Permanência das Casas André Luiz foram constituídos dois grupos (experimental e controle) com 20 pacientes cada um.

Modo de avaliação de melhoria dos pacientes
     O instrumento escolhido para obtenção dos dados foi a Escala de Observação Interativa de Pacientes Psiquiátricos Internados (EOIPPI) (Zuardi et al., 1989), que é um instrumento de avaliação de alterações clínicas e comportamentais de pacientes por combinar observação direta e julgamento clínico. Os fatores que envolvem cuidados especiais, interesse e competência social são encontrados na Escala de Observação Direta do Comportamento.

As reuniões mediúnicas
     Nas Casas André Luiz, as reuniões mediúnicas são compostas por um grupo de 12 pessoas, em média, em que cada um tem uma função específica. Aproximadamente metade do grupo é constituída por médiuns e os demais podem atuar como dirigente, orientador ou apoio. Após a leitura inicial, ocorre uma prece de abertura para harmonização dos participantes. Em seguida, os médiuns ficam receptivos à comunicação mediúnica, que ocorre de modo espontâneo. Muitas vezes, considera-se que essas comunicações provêm de espíritos de pacientes internados na instituição. A conversa que se estabelece visa a ajudar o comunicante a superar a condição aflitiva em que se encontra. As reuniões mediúnicas são realizadas semanalmente, com duração de duas horas cada uma.
O grupo experimental foi formado por 20 pacientes que ao longo desse período participaram das reuniões mediúnicas. O grupo controle foi formado por 20 pacientes, por meio de pareamento (por idade, sexo e grau de deficiência mental), a partir dos outros 630 pacientes que não participaram da reunião mediúnica.
Três tipos de identificação espontânea foram observados durante as comunicações mediúnicas:
1. Sujeito comunicante se identifica pelo nome;
2. Na comunicação mediúnica, o sujeito comunicante apontava e/ou expressava características pessoais, comportamentais e clínicas de determinado paciente;
3. Comunicações de caráter genérico, inconclusivas, sem identificação precisa.
     Estabeleceu-se que só fariam parte do grupo experimental casos enquadrados nas categorias 1 e 2, ou seja, comunicações inconclusivas e/ou sem identificação foram excluídas deste grupo. O grupo controle foi composto por pacientes que não se classificaram como sendo sujeitos comunicantes das reuniões mediúnicas, a partir de pareamento de gênero, idade e grau de deficiência mental.
     Os pacientes, supostos sujeitos comunicantes desta reunião, por não estarem fisicamente presentes nem terem conhecimento de sua eventual participação, não sabem de sua elegibilidade para o grupo experimental.
     Os avaliadores não têm conhecimento de quais foram os sujeitos que supostamente participaram, o que caracteriza um estudo do tipo duplo-cego.
     O procedimento das reuniões mediúnicas obedeceu a parâmetros da doutrina espírita. Em todas as reuniões mediúnicas realizadas na Casas André Luiz adotou-se o procedimento do diálogo que passava por três fases ou momentos. No primeiro momento, o diálogo tinha por objetivo acalmar angústias, rancores, cóleras, entre outros sentimentos, e com isso proporcionar bem-estar. O segundo momento visava a estabelecer um vínculo de confiança entre o sujeito comunicante e o orientador da sessão. Em seguida, adotavam-se técnicas sugestivas de valorização da vida, conforto e aconselhamento moral.

Os experimentos
     Ocorreram 58 comunicações em reunião mediúnica durante o período do estudo, e 20 satisfizeram os critérios de identificação adotados.
     Cinquenta e cinco por cento dos pacientes melhoraram no grupo experimental.
     Esse resultado positivo gera várias reflexões. Sabe-se que muitos pacientes apresentam melhoras de sintomas ao expressar verbalmente suas angústias. Nesse sentido, é possível que essa prática espiritual ofereça uma oportunidade de comunicação para uma população que é incapaz de se comunicar pelas vias convencionais.

     A aplicação do auxílio a portadores de deficiência mental em reuniões mediúnicas emerge uma questão: seria possível replicar esse experimento mediante a aplicação da prática espiritual por meio da formação de reuniões mediúnicas dirigidas a pacientes com deficiência mental internos em outras instituições?
     Será que a abertura de um novo campo de pesquisa que possibilite outras formas de comunicação para os deficientes mentais poderá trazer benefícios na qualidade de vida desses indivíduos, aumentando sua auto-estima e transformando sua atuação social?

     Os resultados obtidos na presente pesquisa estimulam a produção de novos estudos. Entre os possíveis desdobramentos que se pode sugerir há: novas análises e novos experimentos; aplicação do modelo de prática das comunicações mediúnicas como terapias complementares; outros desenvolvimentos de métodos de reconhecimento para supostos sujeitos comunicantes portadores de deficiência mental; conceituação de benefícios clínicos e comportamentais como indicativos provisórios e inconstantes.




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