domingo, 21 de fevereiro de 2016

Os primeiros espiritualistas

Quando começou o Espiritualismo

       O Espiritualismo firmou-se como ciência, filosofia e religião a partir da iniciativa dos norte-americanos, interpretando a fenomenologia da telegrafia espiritual, das mesas girantes e da psicografia no início da década de 1850. A exportação desse movimento para a Europa contribuiu decisivamente no surgimento de um método de apreciação dos contatos espirituais denominado Espiritismo conforme exposto nas obras fundamentais escritas por Allan Kardec.
     No entanto, cerca de 40 anos antes, Deleuze, em seu livro “Lettre à l'auteur d'un ouvrage intitulé: Superstitions et prestiges des philosophes” estabeleceu, pela primeira vez em 1818, a designação de espiritualistas. Ele reconhecia nesse termo, uma expressão que estava em voga entre os estudiosos do Magnetismo.
A designação ‘espiritualistas’ irá vingar entre os pesquisadores de seu tempo, e criará em torno da expressão Espiritualismo, uma série de contingências relacionadas aos estudos da energia humana como ferramenta para estabelecer a ‘crise’ ou o transe entre algumas pessoas chamadas sonâmbulos.
   É necessário ter em mente que ocorria um cisma entre os magnetizadores. Uns crendo que a partir do transe provocado pela aplicação de passes e de imposição de mãos, as indicações de cura para variadas doenças provinham de espíritos com os quais entrava em contato o sonâmbulo. Estes são exatamente os magnetizadores espiritualistas. Deleuze não está entre eles, pois acreditava que a faculdade de indicar remédios provinha da mente expandida do sonâmbulo, por graça de um ‘dom de Deus’ e relativo à bondade da alma do sonâmbulo.
   Joseph Philippe François Deleuze (1753-1835) é um estudioso que faz ressaltar o ângulo mais religioso do magnetismo, quando nos assevera que “Sendo a faculdade de magnetizar, ou de fazer o bem aos seus semelhantes por influência de sua vontade,  a mais bela e a mais preciosa que Deus deu ao homem, deve-se encarar o exercício do magnetismo como um ato religioso,  que exige o maior recolhimento e a intenção mais pura.” No entanto, em suas considerações de religiosidade, Deleuze excluía a intervenção de espíritos.
   Vejamos o que o texto de Deleuze nos oferece, ao mencionar por vez primeira, a existência dos ‘espiritualistas’:

  "Alguns magnetizadores que têm sido designados pelo nome de  espiritualistas, imaginam que, no estado de crise [transe], a alma tendo mais livres os laços da matéria, ela poderia entrar em contato com seres espirituais. Segundo eles, esses seres espirituais são bons ou maus; eles são anjos ou demônios; e ele se comunica com um ou outro, dependendo se você quer que o bom ou mau, dependendo se a pessoa tem intenções puras ou intenções perversas, como é piedosa ou ímpia, de acordo com essa imploramos a ajuda de Deus, ou ele se entrega ao poder de Satanás (sic). Eu não acredito que esta doutrina é verdadeira, porque eu provei no meu livro que essa tese não está estabelecida em bases sólidas. Se o diabo pode prever o futuro, porque a alma humana não pode? Não será a faculdade dos sonâmbulos um dom de Deus e uma prova da santidade de quem a possui?  


(fonte: Deleuze, Lettre à l'auteur d'un ouvrage intitulé: Superstitions et prestiges des philosophes (1818), p. 8-9.)

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