segunda-feira, 9 de maio de 2016

A mediunidade de Chico na infância


No livro 'A Terra e o Semeador', encontramos entrevistas prestadas por Chico Xavier entre osanos de 1958 a 1975, registra-se a entrevista realizada por Hebe Camargo, então em seu programa na Tv Record, a 17 de setembro de 1973.


HEBE CAMARGO - Chico, depois de seu primeiro contato com o mundo espiritual aos 4 anos de idade, como é que aconteceu a continuidade do fato?
CHICO XAVIER - Passados alguns meses, minha mãe adoeceu, mas adoeceu gravemente, e como meu pai estava desempregado ela se preocupou com a nossa sorte, no caso de ocorrer o falecimento dela. Passou a perguntar às amigas, quais delas poderiam se incumbir do zelo de que nós necessitávamos. Às vésperas da partida da minha mãe, ela se sentindo muito mal, começou a chamar as amigas e a entregar os filhos, que eram oito dos quais eu era o penúltimo. Quando chegou a minha vez – eu estava com cinco anos – perguntei a ela:
  – “Mas minha mãe, a senhora está me entregando para os outros?”
“Então, ela me disse:
  – Meu filho, eu não estou entregando você para os outros. Quero que você saiba que vou me ausentar daqui” – naturalmente ela dizia isso prevendo a morte próxima – “e seu pai está em dificuldade. Estou confiando seus irmãos para as amigas zelarem por eles, porque seu pai, no momento, não pode dispensar a atenção que vocês precisam. Você vai ficar com a nossa amiga dona Ritinha e vai gostar muito dela. Ela será muito boa e eu volto para buscar você”.
Naturalmente, sentindo que meu pai, muito moço ainda, necessitaria, provavelmente, de um segundo casamento, como, realmente, aconteceu, ela acrescentou :
  – “Se eu não puder vir mais depressa, enviarei uma moça que possa ajudar a vocês. Mas se alguém disser que eu não volto mais, que eu estou morta, não acredite porque eu voltarei.”
HEBE – Que mulher sensacional, Chico. Como era o nome dela?
CHICO – Maria João de Deus.
HEBE – Maria João de Deus, um nome adequado para uma pessoa que encaminha um filho para suportar a perda de uma mãe. É uma mulher extraordinária e só podia ter um filho maravilhoso como você.
CHICO – Bondade sua, Hebe.
HEBE – Agora, Chico, você começou com essas manifestações com 4 anos, depois com 5 anos a segunda. E qual foi a atitude, por exemplo, dos sacerdotes católicos, com relação ao que você lhes confiava nas confissões?
HEBE – Acompanhei, então, essa senhora, para a residência dela. Ela possuía um sobrinho, um rapazinho de treze anos, e passei a conviver com a família. O casal não tinha filhos, além desse sobrinho e filho adotivo. Essa senhora era excepcionalmente bondosa, mas, no meu caso, ela sentia uma certa necessidade de me surrar, vamos dizer assim.
HEBE – A Dona Ritinha?
CHICO – A dona Ritinha. Esse sobrinho inventava coisas e eu achava que o menino era incapaz de inventar qualquer intriga. Então eu atribuía tudo aquilo ao capeta, porque minha mãe era muito católica e todas as noites nos ensinava orações, nos ensinava a orar com ela, os nove filhos de joelhos. Certa feita, era uma tarde, seis meses depois do falecimento da minha mãe – essa senhora, que me acolhera, tinha o hábito de passear às tardes com o esposo e o sobrinho, e eu ficava com a moça que ajudava na cozinha – eu me dirigi para umas bananeiras, ajoelhei-me e comecei a orar, repetindo as orações que minha mãe me ensinara, porque aquela senhora me dava muitas vezes três surras por dia e eram surras de vara de marmelo.
HEBE – Mas que coisa!
CHICO – O menino criava os problemas, eu não podia me defender e no meu intimo, já que eu não o via a fazer aquilo que ele fazia, eu acreditava que ele era de boa índole e atribuía tudo ao demônio.
HEBE – Você acreditava que ninguém pudesse fazer mal, porque você não era capaz de fazê-la!
CHICO – Eu não acreditava que ele pudesse fazer e então apanhava de manhã, apanhava ao meio-dia e apanhava à tarde.
HEBE – Tinha hora certa para apanhar!
CHICO – Tinha tanta hora certa que de manhã, quando a moça, na cozinha, me falava: – “Chico, venha tomar café”, eu dizia: – “por enquanto, não, eu vou esperar a minha madrinha levantar, para me bater primeiro".
HEBE – Que judiação, meu Deus!
CHICO – Antes da surra fatal eu não sentia o gosto do café. Então, esperava apanhar, porque, depois do couro...
HEBE – Aí já sabia que podia tomar o café.
CHICO – ...eu já sabia que podia tomar café.
HEBE – Até o meio-dia.
CHICO – Até o meio-dia.
HEBE – Mas que coisa!
CHICO – Então, uma tarde, minha mãe me apareceu e começou a conversar comigo. Respondi logo:
– “Ah! mas a senhora demorou.? Por que a senhora nos deixou tanto tempo?” Para mim não havia dificuldade.
HEBE – Quantos anos tinha?
CHICO – Cinco anos. Não havia dificuldades no meu cérebro, não havia dúvida filosófica, não havia discussão religiosa, e admitia o fato de minha mãe estar vivendo porque ela me dissera que voltaria. Aí, falei com ela:
  – “A senhora não sabe como estamos lutando”.... Minha mãe prosseguiu:
  – "Meu filho, no local onde estou, uma enfermeira me informou que você está querendo se queixar das surras, mas você deve apanhar com calma, porque isso vai lhe fazer muito bem.“
  – “Leve-me com a senhora mamãe! Não me deixe mais aqui!...” foi o que eu roguei.

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