domingo, 24 de julho de 2016

O jornal de Deleuze

   
   Em seu ‘Catálogo Racional das Obras para se Fundar uma Biblioteca Espírita’, Allan Kardec faz constar os Annales du Magnétisme Animal, escritos nos anos de 1814 a 1816. Nas edições deste jornal, Joseph Philippe François Deleuze relata os experimentos levados a efeito por magnetizadores europeus. O número 1, lançado em julho de 1814 traz, a partir da sua página 14, o capítulo da História do Magnetismo Animal, no qual lemos elogios ao esforço metodológico de Mesmer:
O progresso da ciência é lento; só depois de ter seguido longa e obstinadamente por uma mesma estrada, a mente pára e sente a necessidade de mudar de direção. Inicialmente surgem apenas flashes de elucidação intelectual, vislumbram-se luzes que muitas vezes caem no esquecimento, os quais, finalmente fortalecidos em seu conjunto, acabam mudando inteiramente a sequência de desenvolvimentos.
  A medicina, que nunca foi reconhecida como ciência propriamente dita, estabeleceu, no século XVIII, alguns passos na direção da aquisição de fundamentos sólidos, impedida de alcançar o caráter próprio das evidências definitivas devido aos preconceitos grosseiros em que está envolvida. O materialismo, que tende a privar a França da sua religião e da sua moral, tem  espalhado seus malefícios por todo o continente e por países além da Europa, e como a faísca que come a madeira, causou uma conflagração geral, anatematizando tudo o que antes houvera sido reconhecido como leis da matéria; o Universo fica entendido como se fosse apenas uma máquina onde só são reconhecidos peso e medidas, e tudo o que não alcança imediatamente o pensamento pelos órgãos dos sentidos está banido como erro, devaneio, contrassenso popular ou charlatanismo. Enquanto alguns poucos homens buscam conservar a pureza da verdade, em meio a este tempo da brutalização da mente humana no qual vergonhosamente outros homens hão negado publicamente a existência de seu Criador, eis que se dá o nascimento da luz mais brilhante que emana da filosofia. O trabalho desses sábios de ciência não é em vão, e fará chegar, em breve, a época em que a medicina se eleve para a segurança das outras ciências.
 As opiniões dos antigos, pelo menos aqueles poucos que admitiam a existência de princípios imperceptíveis aos sentidos e leis diversas daquelas produzidas pelos movimentos fortuitos dos átomos, foram mantidas no esquecimento, até o momento em que um desses homens nascidos para o progresso da iluminação, apareceu; ele recolheu o conhecimento desenvolvido pelos seus antecessores, e isto vivificou sua genialidade; e comparando suas próprias observações com as de todos os séculos que o precederam, atingiu a maior descoberta de que as ciências físicas podem gabar-se, o Magnetismo Animal.
Anton Mesmer, para quem a humanidade contraiu uma grande dívida, era médico, membro da Faculdade de Viena. Estimulado por sua inteligência a afastar-se da rota conhecida, reconheceu a falta de convicções de sua arte médica, e intentou fornecer-lhe bases inabaláveis.
 “Tenho grande respeito pela natureza”, disse ele, “para me deixar convencer de que a auto-preservação humana pudesse estar limitada a circunstâncias casuais, cujas observações feitas ao longo dos séculos, devessem tornar-se de domínio exclusivo para apenas alguns indivíduos.”
  "A natureza providencia tudo o que seja necessário para a existência do indivíduo. A criação efetua-se sem sistemas ou artifícios; poderia ser a sua conservação privada do mesmo benefício? A vida dos animais é uma prova em contrário." (Memória sobre a Descoberta do Magnetismo Animal, Mesmer, p. 9).




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