terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Revisando a historicidade

   Os fatos relacionados ao surgimento do Novo Espiritualismo devem sua importância à demonstração do modo como as ocorrências espirituais levaram ao surgimento de uma doutrina experimentalista, filosófica e religiosa nos Estados Unidos, e também pelo relato das iniciativas e motivações que permitiram o movimento espalhar-se por países europeus ensejando o aparecimento do Espiritismo na França.
Margaret Rutan Smith Fox
   A consignação de fatos demarcatórios das várias fases do Espiritualismo Norte-americano guarda relação de precisão com o maior número de fontes pesquisadas, tornando-a passível de salutar revisão frente à descoberta de novas fontes, mormente quando a rede mundial de computadores possibilita conhecerem-se centenas de livros relativos ao período.
   Revisaremos aqui, alguns trechos em flagrante desacordo com a historicidade, do artigo 'A História do Espiritualismo' cujo texto completo pode ser visitado em Boletim do Grupo de Estudos Avançados Espíritas n° 153, datado de 12 de outubro de 1995 (parte II), com autoria atribuída ora a João Batista (parte I, Boletim n° 151), ora a José Basílio (parte II). Trata-se de um artigo amplamente divulgado nos meios eletrônicos, sendo no entanto de autoria difusa, conforme se vê em Portal do Espírito, agora sob o título "A História do Cristianismo" com créditos atribuídos a Sidney de Paula.     
   Verifiquemos a necessária correção dos trechos sublinhados, comparando-os com as referências bibliográficas alinhadas adiante.

1848 ** O EPISÓDIO DE HYDESVILLE (N.Y.)
 Um mascate é assassinado numa casa em Hydesville.
 Uma família de fazendeiros de nome Fox, metodistas, mudou-se para a casa, e tinha 2 filhas no tempo em que as manifestações atraíram a atenção geral. Eram Margaret de 14 anos e Kate de 11 anos. (1)
 Em 31/03/1848, Kate Fox desafiou aforça invisível a repetir as batidas que ela dava com os dedos, no que se estabeleceu um diálogo.
 A mãe fez uma série de perguntas para serem respondidas com números, todas acertadas.
 Estabeleceu-se uma reunião com vizinhos que perguntavam muito.
 Ele (o dono dos ruídos) informou ser um espírito e que tinha sido assassinado naquela casa e disse o nome do antigo inquilino, que o matara, e tinha sido enterrado na adega (2) a 10 pés de profundidade.
 Seu nome era Charles B. Rosma. Issac Post, um quaker de Rochester, coordenou as mensagens sob a forma de alfabeto (3). Em 02/04/1848 constatou-se que os arranhões se produziam tanto de dia como à noite.
Isaac Post

Respostas às seguintes indagações:
(1) A idade das jovens Fox era 11 e 14 anos?
 referência bibliográfica: Há uma declaração assinada pela sra. Margaret Fox em abril de 1848, constante do livro Reportagem dos Ruídos Misteriosos na Casa de John D. Fox em Hydesville, em que ela faz menção expressa às idades de suas filhas:
   "A minha filha mais nova de 12 anos começou a bater palmas. (...) Minha outra filha de 15 anos resolveu experimentar de brincadeira, e batendo palmas disse: agora faça como eu faço - uma batida, duas batidas, três batidas, quatro batidas!

(2) O texto original em Inglês anota basement, que foi traduzido nesse texto como sendo adega. Havia uma adega na casa de madeira alugada pela família Fox, ou a tradução da palavra inglesa basement está incorreta?
referência de dicionário: A tradução para a palavra inglesa basement é porão, fundamento, embasamento.

(3) O quaker Isaac Post estava presente em Hyesville e coordenou as mensagens sob a forma de alfabeto?
referência bibliográfica: O livro Reportagem dos Ruídos Misteriosos na Casa de John D. Fox em Hydesville, concluído em 20 de abril de 1848 e publicado em maio de 1848, não menciona o nome de Isaac Post entre as 64 testemunhas que assinam declarações para o autor. Quanto ao método do alfabeto, consistia em solicitar ao espírito que fizesse um ruído durante a fala da sequência das letras do alfabeto, para marcar cada letra que deveria ser anotada na formação de sua mensagem. William Duesler, vizinho dos Fox, relata como criou o método do alfabeto: "Falando cada uma das letras do alfabeto, procurei saber as primeiras letras do nome dele. Comecei pela letra A, na qual não houve ruído. Quando cheguei no C, ele fez um ruído. Continuei soletrando até o final do alfabeto mas não ouvimos mais nenhum ruído. Então, para obter a inicial do seu sobrenome, recomecei o alfabeto do início e quando cheguei na letra B, ocorreu um ruído. Continuei a soletrar todas as outras letras até o final do alfabeto mas novamente não ocorreu nenhum som.

Referências:

https://espirito.org.br/artigos/historia-do-cristianismo-3/ visitado em 10/02/2019 às 21:08 horas

Reportagem sobre os Ruídos ouvidos na casa de John D. Fox em Hydesville, E.E.Lewis,  Power Press of Shepard & Reed, Canandaigua, 1848, p. 8



Reportagem sobre os Ruídos ouvidos na casa de John D. Fox em Hydesville, E.E.Lewis,  Power Press of Shepard & Reed, Canandaigua, 1848, p. 14



segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

A progressividade da doutrina espírita I

   Em vária ocasiões Allan Kardec afirma poder a doutrina espírita ser objeto de um processo que lhe
conduza à progressividade. 
   Não há como imaginarmos a possibilidade da progressividade da doutrina espírita ocorrer de modo divorciado do aprimoramento das atividades dos centros espíritas ou afastada dos melhoramentos diários proporcionados pela renovação mental de cada espírita. As dezenas de milhares de instituições espíritas significam o movimento de instrumentação do Espiritismo junto às criaturas, e as milhões de pessoas adesas à causa são o ambiente pessoal onde a essência da doutrina efervesce e pode realizar a transformação pretendida pela doutrina espírita.
   Entendendo que o pensamento de Leon Denis permanece vivo quando afirma que "o Espiritismo será o que os homens dele fizerem" (Leon Denis, No Invisível), algumas questões devem ser propostas quando buscamos analisar o que temos feito do Espiritismo.
    Allan Kardec afirma que "o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação."(Allan Kardec, A Gênese, cap. 1, item 14). Certamente precisamos com mais frequência colher os dados dos fatos novos costumeiramente surgidos nas rotinas de atividade espírita e procedermos a observação, comparação e análise conforme preconiza Allan Kardec e Obras Póstumas, de modo a remontar dos efeitos às causas e deduzir-lhes as consequências e suas aplicações úteis.  
        




sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Joseph Glanvill

Ocorrências anteriores à Hydesville

    A vila de Hydesville constitui-se no local das manifestações coletivas significadoras de um novo modo de ver a vida. Espíritos existem, e podem se comunicar com qualquer um – esta descoberta movimentou os Estados Unidos e o mundo, em torno de métodos, fenômenos, médiuns e sessões públicas, conversação com entes queridos desencarnados, estudos, livros, palestras e discussões acaloradas.
    Dois séculos  antes da Família Fox ser perturbada por dias seguidos na intimidade do próprio lar, Joseph Glanvill descrevera fenômenos semelhantes, em seu livro Saducismus Triumphatus (1666).
    Joseph Glanvil (1636-1680), filósofo inglês, relata os distúrbios do Batedor de Tedworth1 ocorridos durante um ano inteiro, na casa do magistrado John Mompesson, de Tedworth, condado de Wilts, muitos dos quais testemunhados pelo próprio Glanvil.
    Estranhas batidas exprimiam respostas a perguntas precisas dirigidas a presenças desconhecidas. Joseph Glanvil, ao afirmar crer em Deus e também acreditar na comunicação com os mortos, teve sua reputação abalada após sua morte. Cento e oitenta anos depois, a sra. Margaret Fox redescobrirá o método de obter respostas de espíritos, e o espírito batedor de Hydesville fará um ruído para dizer 'sim', e manterá silêncio para responder 'não'.

     O espírito Baterista de Tedworth manifestou-se tocando tambor durante um ano, a partir de abril de 1661, na casa do magistrado John Mompesson.  William Drury – descrito como um mágico itinerante e baterista– foi preso por gerar distúrbios ao bater seu tambor e pedir esmolas. Foi julgado culpado, teve seu tambor confiscado e foi obrigado a deixar a cidade. O magistrado John Mompesson planejava ir a Londres por uns dias a serviço, quando o oficial de justiça chegou trazendo o tambor para ser recolhido na casa do magistrado. Alguns dias depois, ao retornar de seus compromissos, o magistrado foi recebido pela esposa que lhe contou sobre os aborrecimentos causados por distúrbios estranhos que pareciam tentativa de assalto à casa, e por barulhos que se assemelhavam à demolição da casa, especialmente à noite. Havia sons de bateria do tambor, ruídos no telhado e batidas nos móveis e nas paredes. O magistrado somente fará contato pessoal com essas ocorrências na terceira noite após ter voltado para casa. Mompesson acordou ouvindo ruídos tremendos nas paredes e na porta da frente da casa. O magistrado tomou duas pistolas e abriu a porta onde estava ocorrendo um ruído forte, mas imediatamente o ruído surgiu em outra porta. O ruído passou a pervagar a residência, fazendo o magistrado dar um giro completo pela casa sem ter encontrado nada. Tendo voltado para a cama, os ruídos reiniciaram na parte mais alta da casa, semelhando-se ao bater de um tambor, que aos poucos elevou-se no ar.2    
   O magistrado agiu imediatamente, destruindo o tambor de William Drury e quebrando-o em pedaços. Mas os barulhos continuaram.
    O reverendo Joseph Glanvil, capelão do rei Carlos II, foi chamado para investigar. Ele afirmou que subiu as escadas na casa de Mompesson e encontrou, no andar superior, duas meninas com idades entre sete e onze, sentadas na cama e muito assustadas. Os ruídos provinham do espaldar da cama e das paredes. Observou que as mãos das meninas estavam à plena vista sobre as colchas da cama, de modo que Glanvil retirou sua suspeita de que os sons estariam sendo produzidos por elas. Glanvill percebeu que havia um saco de linho, semelhante a um saco de roupa, pendurado na cabeceira de outra cama no mesmo quarto, e balançava para frente e para trás, e não havia ninguém ali. Glanvill agarrou-o e o esvaziou, não encontrando nada de incomum. Uma busca minuciosa pelo quarto não lhe permitiu encontrar uma explicação satisfatória. Os ruídos cessaram. Nos dias seguintes, o magistrado Mompesson foi informado de que William Drury, o baterista, havia sido preso por roubo na cidade de Gloucester, e tinha sido exilado para as colônias.
   No entanto, os ruídos recomeçaram. Soube-se que William Drury tinha conseguido retornar à Inglaterra, e parecia haver uma conexão entre seu retorno e as ocorrências de distúrbios, que agora tornaram-se insuportáveis.  Na casa do magistrado, além da bateção semelhante a sons de tambor, sapatos levitavam voando pelos ares, penicos eram esvaziados sobre as camas, as janelas tremiam e a casa passou a exalar terríveis odores sulfurosos. Os ruídos eram tão altos que toda a aldeia podia ouvi-los. Durante um ano inteiro sucederam-se os distúrbios, até que, sem qualquer explicação, cessaram para sempre.3
(1) Dicionário de Filosofia coordenado por Thomas Mautner. Edições 70, 2010
(2) Footfalls of the Boundary of Another World, Robert Dale Owen, Trübner &CO., 1860, capítulo 2º, p. 215-216.
(3) The Spirit Book: The Encyclopedia of Clairvoyance, Channelling, and Spirit Communication, Raymond Buckland, Visible Ink Press, 2006, p. 116-117


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Montalembert

   Paris assistiu, em 1528, ao lançamento do curioso livro "A maravilhosa história de um espírito que
ultimamente tem aparecido no mosteiro das freiras de São Pedro, em Lyon", escrito pelo capelão do rei Francisco I, Adrien de Montalembert.
   Tratava da aparição e comunicações mantidas com o espírito de uma freira de nome Alis de Tesieux, a qual tivera comportamento passível de graves reprimendas durante a vida clerical e também depois de a ter abandonado, mas que antes de morrer arrependeu-se de seus pecados. Tendo uma jovem freira Anthoinette de Grollée de 18 anos de idade começado a ter visões da falecida irmã Alis, ruídos de pancadas no chão a acompanhavam onde quer que estivesse (1) . O capelão do rei Francisco I foi chamado para, acompanhado do bispo de Lyon, deter e expulsar o espírito da freira.  


(1) d'Artigny, Antoine Gachet. Nouveaux mémoires d'histoire, de critique et de littérature, Académie des siences, belles-lettres et arts, 1756, p. 195

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Philipp Melanchthon

   Na Alemanha de 1520, o reformador religioso e teólogo Philipp Melanchthon (1497-1560) descreveu a ocorrência de ruídos misteriosos em Oppenheim. Seu nome de família era Schwarzerdt, mas seu tio-avô, o humanista Johannes Reuchlin o chamava Melanchthon, que é a tradução de Schwarzerdt para o idioma grego. Um dos principais colaboradores de Lutero na Reforma Protestante, tornou-se o principal líder do protestantismo após a morte de Lutero.
   "Posso afiançar que vi espíritos e conheço muitas pessoas confiáveis que afirmam que não apenas os viram, mas mantiveram conversações com eles." (1)
   Melanchthon também afirmou que Lutero, o líder da Reforma Protestante, foi visitado por um espírito que se anunciou batendo na porta dele. (2)

(1) De Anima Recogn, Wittemberg, 1595, p. 317
(2) Howitt, William. The History of the Supernatural in All Ages and Nations, Cambridge University Press, 1863, p. 435

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Rodolfo de Fulda

   Dentre as mais antigas descrições de manifestações de espíritos provocadores de ruídos, encontram-se os escritos de Rudolf von Fulda (?-868), monge da ordem beneditina no século XIX. Rodolfo foi um devotado teólogo, historiador e poeta, notável praticante de todas as artes. (1).
Monastério de Fulda
  Suas descrições sobre comunicações obtidas com uma inteligência batedora aparecem na crônica Anais de Fulda, no ano de 858. Podemos, desta forma, relacioná-lo entre os antecedentes das ocorrências de Hydesville, inauguradoras do movimento do novo Espiritualismo e da esteira de ações geradoras do Espiritismo (2). 
   O monastério de Fulda está localizado no que atualmente é o estado alemão de Hesse. As crônicas dos Anais de Fulda foram iniciadas pelo monge Einhard e constituíram-se, principalmente, em fonte histórica sobre guerras do período carolíngio. Rodolfo assumiu a feitura das crônicas anuais no ano 858, justamente quando faz aparecer o relato de comunicações com ruídos inteligentes atribuídos a causas invisíveis. As ocorrências se deram em uma casa de fazenda perto de Bingen, na região do Reno, onde o fazendeiro vivia com sua esposa e filhos. A crônica diz que o espírito evidenciou sua presença inicialmente fazendo pedras serem lançadas contra a casa; depois, fez sacudir as paredes que tremiam ao som semelhado a golpes de martelo. Nitidamente o espírito estava focado em perturbar o dono da fazenda, a quem perseguia com frequência.  O espírito causou incêndios queimando as colheitas logo depois de terem sido colhidas e armazenadas. Ocorreram, então, fenômenos de voz direta e o espírito denunciou o homem por vários pecados, incluindo dormir com a filha do capataz da sua própria fazenda. O Bispo de Mainz enviou sacerdotes portando relíquias sagradas até a fazenda e estes também ouviram a voz do espírito denunciando o fazendeiro por adultério. (3)


(1) Reuter, Timothy. The Annals of Fulda: Ninth-Century histories. Volume II. New York: Manchester University Press, 2012
(2) Righi, Brain. Ghosts, Apparitions and Poltergeists: An Exploration of the Supernatural through HIstory. LLewellyn Worldwide, chap. 4, 2011
(3) Wilson. Collin. Poltergeist: A Classic Study in Destructive Hauntings. 2012. p.83

domingo, 22 de julho de 2018

Paracelso



  

   Philippus Aureolus Theophrastus Bombast Von Hohenheim (1493-1541) foi médico, antropólogo, teólogo, sendo considerado em sua época como um grande mago.
   Para ele tudo é vivente; a vida, que existe nos metais como nas plantas, pode ser transmitida destes ao homem.
   Paracelso afirmou que o homem possui em si mesmo um fluido magnético e que sem essa energia ele não poderia existir. Tratava-se de uma espécie de fluido universal que produz todos os fenômenos que observamos. Os magnetizadores que viriam 300 anos mais tarde afirmariam a existência do fluido vital, com as mesmas funções do fluído magnético de Paracelso.
  Com base nestes conceitos afirmava que, como o homem emite e recebe vibrações, pode também emitir ou receber boas ou más vibrações. Acreditando ter descoberto outra função para os imãs, além da função de atrair metais, aplicou os magnetos e produziu curas de epiléticos e de pessoas sob efeito de outras doenças nervosas.
  Paracelso foi um dos principais precursores do estudo do magnetismo animal, ainda que se considere Mesmer, dois séculos depois, como o pai da teoria do magnetismo.
  Paracelso aplicou suas ideias à medicina afirmando que "o primeiro médico do homem é Deus", autor da saúde, já que "o corpo não é mais que a casa da alma".
   A palavra Magnetismo provém dele, que comparou a força emitida pelo homem à atração que o imã (magneto), exerce sobre o ferro. Depois de Paracelso, seus discípulos continuaram o trabalho do mestre, porém praticamente às escondidas, devido às perseguições dos religiosos e dos médicos.
  Contribuição de Paracelso: o reconhecimento da existência de um poder que flui e pode ser utilizado pelos homens: criou a palavra magnetismo e a conceituou, comparando a forma emitida pelo homem à atração que o imã exerce sobre o ferro.
 Podemos ainda relacioná-lo entre os antecedentes dos estudos sobre tiptologia ao denominar os ruídos pela expressão latina pulsatio mortuorum, - presságios de morte -, nos seus escritos "Almas dos Mortos". (1)

(1) The Selected Works of Andrew Lang, Library of Alexandria, p.l 808)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...